Nascida a 6 de Novembro de 1919 na cidade do Porto, Sophia de Mello Breyner é uma das mais célebres escritoras e poetisas portuguesas do século XX.
Realizou os seus estudos na área da Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e publicou os seus primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia.
Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreveu também contos, artigos, ensaios e teatros.
Recebeu, entre diversos outros, o Prémio Camões 1999.
Sophia de Mello Breyner faleceu a 2 de Julho de 2004 e o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional, exatamente 10 anos após o seu falecimento. Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Apesar de grande parte dos seus poemas tratar o mar e a natureza, este poema carateriza-se pela temática da injustiça e da das desigualdades sociais. Podemos observar este tema não só através do poema propriamente dito, mas também pelo seu título, Porque, que reforça, através da anáfora, a ideia desenvolvida ao longo do poema.
No desenrolar do texto, o sujeito poético evidencia os defeitos dos "outros", que são todos aquelas que participam ativa ou passivamente na mentira e na corrupção. Por contraposição, carateriza o destinatário "tu" como uma representação daqueles que ousam opor-se a essa corrupção, desonestidade e cobardia, vencendo o medo.
Assim, considerando todos estes fatores, penso que este poema é um dos melhores da autora, pois retrata, de forma exemplar, as atitudes e a mentalidade da nossa sociedade que, por vezes, não são as mais corretas.
Para além disso, considero este poema bastante semelhante ao poema À Beleza de Miguel Torga, do qual gosto imenso, sendo mesmo um dos meus favoritos.
Em suma, penso que estes dois poemas são bastante belos pois, para além de criticar a sociedade, são também de uma delicadeza única, bastante usual destes dois poetas.
À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Miguel Torga, in Odes
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