quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Porque

    Sophia de Mello Breyner
     
 Nascida a 6 de Novembro de 1919 na cidade do Porto, Sophia de Mello Breyner é uma das mais célebres escritoras e poetisas portuguesas do século XX.
      Realizou os seus estudos na área da Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e publicou os seus primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia.
      Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreveu também contos, artigos, ensaios e teatros.
      Recebeu, entre diversos outros, o Prémio Camões 1999.
     Sophia de Mello Breyner faleceu a 2 de Julho de 2004 e o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional, exatamente 10 anos após o seu falecimento. 

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

      Apesar de grande parte dos seus poemas tratar o mar e a natureza, este poema carateriza-se pela temática da injustiça e da das desigualdades sociais. Podemos observar este tema não só através do poema propriamente dito, mas também pelo seu título, Porque, que reforça, através da anáfora, a ideia desenvolvida ao longo do poema.
      No desenrolar do texto, o sujeito poético evidencia os defeitos dos "outros", que são todos aquelas que participam ativa ou passivamente na mentira e na corrupção. Por contraposição, carateriza o destinatário "tu" como uma representação daqueles que ousam opor-se a essa corrupção, desonestidade e cobardia, vencendo o medo.
      Assim, considerando todos estes fatores, penso que este poema é um dos melhores da autora, pois retrata, de forma exemplar, as atitudes e a mentalidade da nossa sociedade que, por vezes, não são as mais corretas.
      Para além disso, considero este poema bastante semelhante ao poema À Beleza de Miguel Torga, do qual gosto imenso, sendo mesmo um dos meus favoritos.
     Em suma, penso que estes dois poemas são bastante belos pois, para além de criticar a sociedade, são também de uma delicadeza única, bastante usual destes dois poetas.
À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 
Miguel Torga, in Odes

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