sábado, 15 de agosto de 2015

      A noite está quente, tenho dificuldades em adormecer. Olho para as flores que me ofereceste no meu aniversário, sorrio espontâneamente. -Tenho saudades tuas.- Partiste há precisamente seis anos e há seis anos o meu coração ficou vazio. Os meus dias ficaram cinzentos e jamais voltarão a ter cor, agora tudo é preto e branco e assim permanecerá.
      Ainda te oiço a mexer na cama nas noites menos frescas, ainda acordo com o teu toque na minha bochecha e com o cheiro das tuas torradas acabadinhas de fazer, ainda oiço as tuas palavras sussuradas no meu ouvido quando me viro para ti e percebes que estou acordada. Palavras essas que não vão voltar. Foste para outro mundo e deixaste-me aqui sozinha, e por mais que tente mostrar aos nossos filhos e aos nossos netos que sou forte e sei lidar com a tua ausência, a verdade é que nada mais sei fazer senão afogar-me em lágrimas quando à noite me deito na nossa cama e encontro a tua almofada fria e o lençol vazio.
      Lembro-me de desejar que o tempo passasse para te poder ter comigo todos os dias, e sei que, mesmo quando já te tinha, por vezes não dava o devido valor. Sou rabugenta, sempre fui e, com a idade que tenho, é certo que só irei piorar. E não, não considero que isto seja uma desculpa para todas as discussões que causei por te responder com palavras amargas, por te encarar com sete pedras, sete tijolos, ou até mesmo sete pedragulhos, mas esta é a verdade. Não penso, não meço as palavras, digo tudo sem pensar primeiro, sei que de todas as pessoas eras a que menos merecia esta minha frieza. -As lágrimas começam a escorrer-me pelos olhos, primeiro, uma seguida da outra e, depois, todas ao mesmo tempo, quase criando uma autêntica castata.- Eras um verdadeiro paz de alma, como diziam os meus pais, eras e sei que, onde quer que estejas, és a melhor pessoa do universo e, certamente, a única com paciência suficiente para me aturar. -Fazes-me tanta falta.- Preciso do meu velhinho tonto, o amor da minha vida, o pai dos meus filhos, o avô dos meus netos, o meu eterno companheiro. Preciso dos teus carinhos, das tuas palavras sábias, da tua gargalhada quando estavas prester a pregar alguma partida, preciso do teu olhar ternurento, esses teus olhos cor de mel, esse teu brilho. Preciso de ti, preciso que precises de mim. Preciso que me dês força para viver. Olha por mim, por favor.- Seco as lágrimas, deito-me novamente. Hoje durmo no teu lado da cama.
      O sono não quer chegar, mantenho-me a pensar em ti, penso no nosso passado, desejo um futuro onde estivesses a meu lado. -Mordo os lábios para não dizer o teu nome. Coloco a mão perto do meu coração. Fecho os olhos.- Sinto o teu cheiro escondido entre as flores secas, velhas, duradouras e, tal e qual o nosso amor, fortes. -Começo a sonhar.- Vejo o teu nome escrito nas páginas do poeta que morre de amor, encontro o teu rosto na multidão que corre pelas ruas. És tu, sempre foste tu.