sábado, 13 de dezembro de 2014

Nunca Nada de Ninguém

       Li recentemente o livro Nunca Nada de Ninguém, de Luísa Costa Gomes e confesso que fiquei um tanto desiludida. Este livro é uma peça de teatro, dividida em três interlúdios e três atos, que retratam o quotidiano de várias mulheres.
        Devo dizer que, no decorrer do primeiro interlúdio, fiquei bastante impressionada com o livro, elevando bastante as minhas expetativas como leitora, porém, nos atos seguintes senti uma enorme desilusão que me fez ver cada emoção que tinha sido despertada ao início não ser cumprida com o avanço do livro.
       Apesar da fraca argumentação, gostei imenso da riqueza de escolha de palavras da autora, não tendo de se esconder entre discursos que ofuscassem o verdadeiro sentido que transmitia, mas sim expressando o que queria dizer de forma simples, mas verdadeiramente tocante. O núcleo desta riqueza destaca-se, claramente, no primeiro ato, onde são contados os problemas de várias senhoras, que levam o leitor a questionar-se se os seus problemas serão tão assim tão graves comparando com verdadeiros infortúnios.
        Por outro lado, um dos fatores que mais contribuiu para o meu desagrado perante este livro é também a fraca qualidade dos diálogos do terceiro ato, que considero o mais fraco dos três, já que são retratadas conversas banais que, na minha opinião, nada interessam ao leitor.
        Concluindo, penso que, tendo em conta as capacidades literárias da autora que presenciei e me deliciaram no começo desta leitura, o livro poderia ter sido uma ótima obra se mantivesse o estilo que apresenta inicialmente. Este é um livro que não recomendo; porém, gostaria de num futuro próximo experimentar ler outra obra de Luísa Costa Gomes.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Detalhes

      Era de madrugada, depois de um pesadelo furtivo que me destruiu a alma, acordei. Os meus olhos quebraram-se em instantes, o meu coração desuniu-se em pequenos pedaços cortantes e ali fiquei, paralisada e inábil de sentir. Parei de notar os simples detalhes de tudo, coisas simples e a que não damos o devido valor... como aquele pequeno toque que fazemos no mar antes de nos molharmos, como sentir o vento no rosto e parecer incomodativo e no final, quando privados desses pequenos detalhes, percebemos ser algo que realmente faz a diferença nas nossas vidas, e quando o entendemos talvez seja tarde de mais... Pode ser que um dia a luta comece tarde, talvez o sol se ponha mais cedo, quiçá as andorinhas cheguem antes da primavera e quem sabe se o amor parte antes do fim e as lágrimas surgem antes do infortúnio. A verdade é que nunca sabemos a dor de uma ferida aberta e infetada até ela vir até nós, não conhecemos o calor do fogo escaldante até ao momento em que a chama queima a nossa alma e depois de incendiado e seco destrói o nosso coração.
       Já não sabemos mais olhar o céu. Sempre pensei que cada cicatriz nos nossos corações fosse os nossos nomes simbolizados em ternura eterna.. A verdade é que aos olhos do mundo a eternidade não existe, mas aos olhos do mundo tudo é figurado, todos nos movemos na mesma ambição, ao sentido da colonização toda a humanidade é egoísta, todos fazemos o necessário, lutamos o q.b. E a maior desilusão é saber que poucos se esforçam para mudar o mundo, para pintar de outras cores o arco-íris e alcançar de outras formas o céu. Jamais conseguiremos fazer a diferença se constantemente nos prendermos no habitual e no conhecido ''normal'' e ,desta forma, em tempo algum seremos hábeis de largar o chão e voar pelos nossos sonhos, nunca seremos capazes de ignorar todos os comentários a nosso redor e alcançarmos o prazer que é o amor partilhado entre dois pequenos seres e grandes ideais correspondentes.
      Assim jamais atingiremos o que mais ambicionamos, a menos que lutemos da mais deslumbrante forma a que somos habilitados. Desta forma queimaremos todas as mágoas de tempos passados e profundamente as enterraremos, não esquecendo mais sim deixando passar cada lágrima um dia escorrida que em momentos humedeceu as nossas feridas e as ardeu como álcool. Riscaremos cada palavra que nos faça deixar de lutar como também enfrentaremos cada obstáculo no longo caminho que nos encaminha à eterna felicidade porque a meus olhos essa sim existe, e com cada batida dos nossos corações sei que lá chegaremos.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Loucura

Loucura, de Mário de Sá-Carneiro, retrata a história de um caprichoso homem que, no decorrer do tempo e da vida se entrega à banalidade do amor. Se apenas disso se tratasse, penso que o livro não teria o mesmo impacto, não despertaria tão profundamente as emoções do leitor. Página após página, surge em Raúl, o eterno fugitivo dos sentimentos e da normalidade humana, uma sufocante e imensa paixão que, como enuncia o título, o levará à loucura.
               Não é a de Raul, a meu ver, uma forma correta de pensar e ver a vida, pois devido à sua personalidade, vivia desassossegado e com pouco se contentava, o que se refletiu quando se apaixonou por Marcela.
               Embora esta fosse a sua forma de demonstrar o afeto que sentia, realçava aos olhos da sua amada que nela tudo amava, que não era como os outros homens, que apenas a olhavam como uma criança olha para o brinquedo mais caro e colorido no topo de uma prateleira.
               Raul amava e não o negava; porém, não considero esta personagem como algo que me desperte interesse. Penso até que os seus ideais eram o símbolo de alguém egoísta e inconsciente. É terrivelmente assustadora a forma como se acha dono da razão, até mesmo quando fala com o seu melhor amigo, que apenas lhe deseja o melhor.

               Finalmente, penso que Raul faria tudo pelos seus ideais. As suas atitudes, ao longo do enredo levam-me a concluir que, por vezes, não podemos seguir tudo em que acreditamos, pois ocasionalmente o interesse cega-nos e conduz-nos à obsessão.