quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

                                              Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

      Para terminar o 1º período deste ano letivo, foi-me pedido que comentasse um poema apresentado, previamente, por um colega. O poema que escolhi comentar foi À beira de água, de Eugénio de Andrade.
      Na minha opinião, apesar de simples, este poema dispõe de uma mensagem fortíssima pois, para além de tratar o tão célebre tema de grande parte da poesia portuguesa, e até mesmo mundial, o amor, transmite também diversas outras mensagens, como o envelhecimento, que poucos poetas retratam nas suas obras.
      Assim, considero este poema bastante belo pois retrata de uma forma única muitas das emoções que acompanham toda a sociedade.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Visita à Escola Básica de Bocage


      No passado dia 12, quinta-feira, a turma 11ºI da Escola Secundária de Bocage deslocou-se até à Escola Básica de Bocage, onde realizou uma apresentação acerca da vida e obra de Bocage e a disciplina de Literatura Portuguesa.
      Embora os resultados tenham sido positivos, uma vez que, no geral, todos os alunos que apresentaram se encontravam preparados, penso que as turmas às quais a intervenção oral foi dirigida poderiam ter colaborado mais, ao invés de comunicarem com os colegas do lado. 
      Porém, é importante salientar que este problema ocorreu apenas com uma das turmas, a primeira, o que resultou numa apresentação mais contigo e que, consequentemente, provocou um maior nervosismo para os alunos do primeiro grupo a apresentar.
      Por outro lado, tendo em conta a atenção e as intervenções prestadas pela segunda turma, a apresentação do segundo grupo tornou-se, assim, mais fácil, uma vez que os intervenientes da apresentação tiveram a possibilidade de falar fluentemente, sem que o constante murmúrio o impedisse.
      Concluindo, penso que esta experiência é algo a repetir, uma vez que, apesar dos pequenos aspetos negativos, o resultado foi bastante positivo.

Porque

    Sophia de Mello Breyner
     
 Nascida a 6 de Novembro de 1919 na cidade do Porto, Sophia de Mello Breyner é uma das mais célebres escritoras e poetisas portuguesas do século XX.
      Realizou os seus estudos na área da Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e publicou os seus primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia.
      Autora de catorze livros de poesia, publicados entre 1944 e 1997, escreveu também contos, artigos, ensaios e teatros.
      Recebeu, entre diversos outros, o Prémio Camões 1999.
     Sophia de Mello Breyner faleceu a 2 de Julho de 2004 e o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional, exatamente 10 anos após o seu falecimento. 

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

      Apesar de grande parte dos seus poemas tratar o mar e a natureza, este poema carateriza-se pela temática da injustiça e da das desigualdades sociais. Podemos observar este tema não só através do poema propriamente dito, mas também pelo seu título, Porque, que reforça, através da anáfora, a ideia desenvolvida ao longo do poema.
      No desenrolar do texto, o sujeito poético evidencia os defeitos dos "outros", que são todos aquelas que participam ativa ou passivamente na mentira e na corrupção. Por contraposição, carateriza o destinatário "tu" como uma representação daqueles que ousam opor-se a essa corrupção, desonestidade e cobardia, vencendo o medo.
      Assim, considerando todos estes fatores, penso que este poema é um dos melhores da autora, pois retrata, de forma exemplar, as atitudes e a mentalidade da nossa sociedade que, por vezes, não são as mais corretas.
      Para além disso, considero este poema bastante semelhante ao poema À Beleza de Miguel Torga, do qual gosto imenso, sendo mesmo um dos meus favoritos.
     Em suma, penso que estes dois poemas são bastante belos pois, para além de criticar a sociedade, são também de uma delicadeza única, bastante usual destes dois poetas.
À Beleza
Não tens corpo, nem pátria, nem família, 
Não te curvas ao jugo dos tiranos. 
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói. 
És a essência dos anos, 
O que vem e o que foi. 

És a carne dos deuses, 
O sorriso das pedras, 
E a candura do instinto. 
És aquele alimento 
De quem, farto de pão, anda faminto. 

És a graça da vida em toda a parte, 
Ou em arte, 
Ou em simples verdade. 
És o cravo vermelho, 
Ou a moça no espelho, 
Que depois de te ver se persuade. 

És um verso perfeito 
Que traz consigo a força do que diz. 
És o jeito 
Que tem, antes de mestre, o aprendiz. 

És a beleza, enfim. És o teu nome. 
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço... 
Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço. 
Miguel Torga, in Odes

domingo, 13 de dezembro de 2015

Uma personagem de Um Auto de Gil Vicente

      Já seis dias passaram e esta dor no meu peito não quer desaparecer, esta saudade que toma conta de tudo que sou! Bernardim, meu Bernardim! Tu que te sacrificaste, tu que morreste de amor! Ninguém sabe o quanto sofro, nem meu pai! Os dias passam, o sol nasce e o sol põe-se, as nuvens passam, a chuva cai, o tempo corre! Corre nesta minha vida parada no tempo! Ainda me lembro de teu rosto implorando misericórdia, teus olhos pedindo a Deus que pudesses ficar com Beatriz. A pobre Beatriz, que neste momento sofre mais do que eu, pois, para além de sentir a tua falta, de chorar a tua perda, tem de fingir amar outro e sorrir-lhe com o seu coração despedaçado e os seus olhos em lágrimas, enquanto eu apenas sofro e guardo o meu coração até te reencontrar. Se eu pudesse unir-vos novamente, só Deus sabe que o faria! Antes o teu sorriso perante Beatriz do que a tua morte por não a teres...
      E vou lentamente sarando esta ferida, vou acreditando que um dia mais tarde nos reencontraremos... As saudades permanecem, Bernardim, essas não irão desaparecer.