
O
livro que apresentei recentemente chama-se “A criança que não queria falar”, de Torey
Hayden, uma professora inglesa de ensino
especial que, a partir de 1979, decidiu começar a relatar, através da publicação de livros, algumas das suas experiências como educadora.
O
livro retrata uma história verídica, sobre uma menina chamada Sheila de seis anos de idade, abandonada pela mãe, separada do irmão mais
novo e que, passo a citar,
“até então apenas conheceu um mundo onde foi severamente maltratada e abusada”.
Sheila
ficou então à guarda do pai, que durante os primeiros anos da sua vida
esteve preso por assalto e agressão.
Depois de cumprir a sua pena esteve durante muito tempo no hospital devido
ao consumo de álcool e drogas.
Tendo
em conta a falta de qualidade de vida que o pai lhe proporcionava, acabou por ser entregue a uma instituição
de proteção de menores, onde "descobriram" graves cicatrizes
e fraturas provocadas por maus-tratos. No
entanto, acabaram por voltar a confiar a menina ao pai, que continuou
a proporcionar uma má qualidade de vida, deixando Sheila a viver numa
barraca com apenas uma divisão onde
não havia água e luz.
Sheila
era uma menina pequena e frágil, devido a subnutrição e graves problemas
mentais, que a levaram a com apenas
seis anos a raptar um menino de três anos, levá-lo para um bosque, amarrá-lo a
uma árvore e pegar-lhe fogo.
Assim,
Sheila é encaminhada para um hospital
psiquiátrico, mas não há vagas. A única solução seria a entrada, embora
provisória, numa escola especializada. A
sua entrada na sala e na escola foram bastante atribuladas. Torey, a professora da sala, já
tinha o máximo de alunos na sua sala. Mas, como era urgente e como seria uma
situação provisória, acabou por aceitar e passou a ficar com nove crianças.
Sheila
não se adaptou e acabou
por aterrorizar as outras crianças e toda a comunidade escolar. Existem alguns episódios trágicos
que fizeram Torey entrar em desespero, porém, depois de alguns dias, acaba
por se aperceber de que tinha algo muito
grave em mãos, e de que teria de dedicar todas as suas forças para
ajudar esta criança.
Após algumas "batalhas" começam a
criar-se laços muito fortes entre as duas. Sheila, começou a ganhar vontade de
ir para a escola e começou a sentir felicidade por estar lá. Um dos momentos que, na minha opinião, demonstra uma maior evolução, é quando Sheila repara que as outras crianças a ''excluem'' por esta não dizer um simples ''obrigada'' ou ''por favor''. (Uma
tarde, depois da escola, ficou de pé junto à mesa, onde eu fazia uma pequena
experiência de ciências.
-Como é que a Tyler recebe tantos
bilhetes?- perguntou.- Recebe mais que todos. És tu que lhos dás?
-Sabes bem que não. Todos
escrevem bilhetes.
-Como é que ela recebe mais?-
insistiu, pondo a cabeça de lado, com um ar de desafio.- O que ela fazer? Por
que é todos gostam dela assim?
-Bom- Repliquei, ponderando um
momento no assunto.- Por um lado, é delicada, Quando quer alguma coisa, pede e
quase sempre diz ‘’por favor’’. E ‘’obrigada’’ também. Isso faz com que uma
pessoa queira ajudá-la ou estar com ela. Sentimo-nos bem.
Sheila franziu o sobrolho e olhou
para as mãos. Depois, fitou-me com um olhar acusador.
-Por que é que nunca me dizeres
que queres que eu diga ‘’por favor’’ e ‘’obrigada’’? Não sei que queres isso.
Por que é que dizeres a Tyler e não a mim?
-Não disse nada à Tyler-
respondi, com um olhar incrédulo.- É uma coisa que as pessoas fazem. Toda a
gente gosta que os outros sejam delicados.
-Eu não sei isso. Nunca ninguém
me disse- declarou num tom de censura.- Nunca saber que quereres que faça isso.
Ao refletir no assunto, soube que
ela tinha razão. Provavelmente nunca lhe dissera. Era uma daquelas coisas que
eu achava que qualquer criança sabia. Contudo, a injustiça do pressuposto
abateu-se sobre mim. Talvez Sheila nunca tivesse ouvido aquelas palavras no seu
meio. Ou talvez nunca tivessem tido qualquer significado para ela até agora.
-Desculpa Sheila. Julgava que
sabias.
-Não sei. Posso dizê-las, se
saber que queres.
-Quero- vinquei, assentindo com a
cabeça.- São palavras boas para usar porque fazem com que as outras pessoas se
sintam bem. Isso é importante. As pessoas gostam mais de nós por isso.
-Dirão que sou boa menina?
-Ajudá-las-á a ver que és.
E assim, aos poucos, começou a
prestar atenção ao que outros faziam para serem bons e delicados. Quando não
compreendia, perguntava. Por vezes, quando a sentia desamparada, aproveitava os
momentos em que estávamos a sós para lhe explicar.'')
Gostei imenso deste livro não só pela história em si e toda a sua emoção e verdade, mas também pelos pormenores da escrita da autora. Interessou-me bastante a forma como descreve todas as emoções de forma tão transparente e tão crua que, a certo ponto, me levaram às lágrimas. Este é um tema bastante frágil e que deve ser tratado com a devida sensibilidade para que ofereça ao leitor todas as emoções sentidas por Sheila e pela professora, levando-o a sentir-se como parte do livro.
A criança que não queria falar demonstra, de forma exemplar, o quanto devemos lutar contra as nossas maiores fraquezas mas, acima de tudo, como os laços e o amor são importantes e como cativar alguém pode mudar a nossa vida.
A criança que não queria falar demonstra, de forma exemplar, o quanto devemos lutar contra as nossas maiores fraquezas mas, acima de tudo, como os laços e o amor são importantes e como cativar alguém pode mudar a nossa vida.
Sem comentários:
Enviar um comentário