domingo, 17 de maio de 2015

Eu, Bocage...


Eu, Bocage, vivi uma vida polémica porque me dei ao luxo de utilizar algo tão simples como a palavra numa época em que as pessoas sentiam e não se manifestavam, como dizia meu grande modelo Camões, o ‘’fogo que arde sem se ver’’.
            Para além disso, também o meu fado foi condicionado pelo período cultural em que vim ao mundo, e pela pessoa irreverente e instável em que me tornei. Mas antes de formarem uma ideia errada sobre mim, permitam-me explicar-vos como tudo aconteceu.
            No ano de 1765, nasceu, na opinião de muitos, um dos melhores poetas do século XVIII, eu próprio, Manuel Maria Barbosa du Bocage. Nasci na maravilhosa cidade de Setúbal, com o seu belo rio Sado. O meu pai era advogado e a minha mãe uma senhora francesa que, infelizmente, morreu quando eu tinha apenas 10 primaveras. (“Aos dois lustros a morte devorante//Me roubou, terna Mãe, teu doce agrado”). Aos 16 anos de idade alistei-me no Regimento da Infantaria de Setúbal onde tive o prazer de ter como comandante um sargento-mor entendidíssimo em literatura que despertou em mim o amor pela escrita. Porém, não foi o suficiente para me manter na minha cidade por muito tempo, por mais saudades que tenha vindo a ter. (“Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,// Mansa corrente, deleitosa, amena,//Em cuja praia o nome de Filena //Mil vezes tenho escrito, e mil beijado “) Assim, dois anos depois, fui para a capital onde entrei na Companhia de Guardas-Marinhas e adquiri diversos conhecimentos sobre náutica, geometria, aritmética e artilharias, e desenvolvi a minha admiração pela língua da minha falecida mãe, o francês. Muitos dizem que foi aqui que ingressei na minha vida boémia de improvisador satírico e, na verdade, não o posso negar, tendo em conta que, já em 1784, me vi a ser expulso da Companhia. No entanto, alcancei o perdão das autoridades e fui assim nomeado para guarda-marinha da Armada do Estado da Índia, para onde parti, tal como meu grande Camões. (“Quão semelhante// Acho teu ao meu”).
            Em 1787 matriculei-me na Aula Real da Marinha onde permaneci um ano, gravemente doente, o que não me impediu de ser nomeado Tenente da Infantaria da 5ª companhia do regimento de guarnição da praça de Damão e de embarcar para Macau. Três anos depois consegui regressar ao Tejo com o pseudónimo de Elmano Sadino e tentei recomeçar a minha vida ingressando na Academia das Belas-Letras. Porém, nem tudo no meu regresso foi positivo. Ao chegar a Lisboa, fiquei a saber que a minha querida e amada Gertrudes, também conhecida como musa Gertrúria nos meus poemas, se casou com o meu irmão Gil Francisco e, confesso, foi doloroso.
            No ano de 1791 publiquei a minha primeira obra, o tomo I das Rimas, em que me afirmei finalmente como poeta e me marquei pelo erotismo e pela sátira de caráter social que, frequentemente, destaquei. Para além disso, penso que sejam também notórias na minha poesia duas vertentes líricas; a luminosa e etérea (na qual me entreguei à evocação da beleza das minhas amadas), e a noturna e pessimista (onde manifestei a dor tremenda provocada pela indiferença das minhas musas), e, à semelhança do Excelentíssimo Camões, a abordagem comum de temas como o ciúme, a noite, a morte (“A morte para os triste é ventura”), a liberdade, o amor. (“Quantas vezes, Amor, me tens ferido!”). Considero a minha obra um marco do momento histórico da transição entre o arcadismo e o romantismo, marcado pela Revolução Francesa pela qual tenho tanto agrado.
Em 1794, como era de esperar, fui também expulso da Academia e, um ano depois, apresentei-me na Maçonaria, onde expandi com cada vez mais entrega a minha admiração pelos ideais da Revolução Francesa e do Iluminismo, vindo-me a tornar uma das maiores figuras do Iluminismo português. Por esta mesma razão vi meu fado ser quebrado e manuseado tentando moldar a minha irreverência e fui cativo na prisão do Limoeiro e, mais tarde, no Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades onde iniciei a minha vida como tradutor. No dia 31 de Dezembro desse mesmo ano fui libertado e no início do seguinte publiquei o tomo II das Rimas e continuei a traduzir provas e textos na Oficina Tipográfica do Arco do Cego.
            Em 1801, no reinado de D. João VI, fui convidado a estar presente na festa da paz com França, organizada pelo Intendente Manique, o mesmo que me condenou à prisão quatro anos antes, julgando que eu já tinha assentado a minha faceta revolucionária.
            Um ano depois escrevi a tão célebre Pena de Talião, contra o padre José Agostinho de Macedo. Nesse mesmo ano perdi o meu pai, e passei a viver com a minha irmã Maria Francisca que me acompanhou numa das fases mais difíceis da minha tenebrosa vida, onde a miséria e a pobreza reinaram e, como se não bastasse, quando em 1804 descobri que sofria de um aneurisma nas carótidas. Publiquei, um ano depois, duas obras, os Improvisos de Bocage na sua Mui Perigosa Enfermidade e a Coleção de Novos Improvisos de Bocage na sua Moléstia. No dia 21 de dezembro do ano seguinte acabei por falecer na miséria e só assim consegui alcançar um pouco de paz no Cemitério da Igreja Paroquial das Mercês, onde fui sepultado. (“Já Bocage não sou!... À cova escura//Meu estro vai parar desfeito em vento... //Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento// Leve me torne sempre a terra dura.”).

            Em 1841 foi criado um monumento em minha honra, na Praça de Bocage, na minha bela cidade de Setúbal onde a minha alma sempre permanecerá acompanhada do meu coração. 



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