domingo, 13 de março de 2016

Café Martinho da Arcada

Localizado no Terreiro do Paço, por baixo da arcada nordeste da praça da capital, a história do bicentenário Café Martinho da Arcada inicia-se em 1778 numa modesta loja de bebidas.
Em 1778, funcionava já por baixo da arcada do Terreiro do Paço uma modesta loja de bebidas e de gelo que, a 7 de janeiro de 1782, seria inaugurada oficialmente como botequim. Na Lisboa do séc. XVIII, onde eram comuns as tabernas mal frequentadas e de mau nome, o aparecimento de um novo botequim é um acontecimento importante. Entre os habituais clientes do estabelecimento destacam-se, entre convidados de honra, altos representantes da corte de D. Maria I, alguns burgueses endinheirados e, o mais célebre, Fernando Pessoa. Com o dealbar do novo século, os botequins setecentistas tendem a desaparecer e o hábito do café, tal como na Europa, começa também a expandir-se.
Um ano depois, o neveiro-mor (fabricante de gelo) da Casa Real e fundador do estabelecimento arrendá-lo-ia ao italiano Domenico Mignani, que o rebatizaria de Casa de Café Italiana. Suceder-se-iam várias gerências e denominações – Café do Comércio, Café dos Jacobinos, Café da Neve, Café da Arcada do Terreiro do Paço – até à adoção, em 1829, de Café Martinho. A ideia pertenceu a Martinho Bartolomeu Rodrigues, neto do proprietário original, que, para distinguir o local de outro que adquirira no Largo de Camões, optaria 16 anos depois por Café Martinho da Arcada.
               Fernando Pessoa, incontestavelmente um dos maiores poetas do séc. XX, escreveu, como se sabe, uma boa parte dos seus poemas à mesa do Martinho da Arcada. De todos os cafés que frequentou, o Martinho foi (sobretudo nos últimos dez anos da sua vida) como que uma segunda casa. Utilizava-o como um escritório de fim de tarde, onde escrevia, e se encontrava com os amigos mais íntimos. Após a morte de sua mãe, os últimos anos do poeta são particularmente difíceis, muito só, atormentado e já com uma saúde precária, Fernando Pessoa, numa quarta-feira de Outono (27 de Novembro) toma, com Almada Negreiros, o ultimo café no Martinho da Arcada. Dois dias mais tarde é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, onde morre aos 47 anos no dia 30 de Novembro de 1935.

A generosidade dos poemas que integram “Mensagem” e muitas páginas do “Livro do Desassossego” ali nasceram e, ainda hoje, quase oito décadas depois, são ainda a razão do sucesso deste estabelecimento. 

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